Vamos desativar a Multidão

um relato sobre empreendedorismo e sobre tomar decisões difíceis
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Esse post é sobre toda a breve trajetória da Multidão e sobre os porquês de estarmos desativando esse esforço no momento.

Eu espero que esse conteúdo não desestimule as pessoas a empreenderem. Espero o efeito contrário, que nossa experiência com a Multidão mostre um aspecto crucial de toda jornada de um empreendedor ou empreendedora: saber medir seus esforços, praticar desapego e priorizar causar impacto e seguir o propósito do negócio acima de qualquer sentimento de insistência desnecessária.  

Digo isso pois é muito comum, em buscas na internet, dizeres que te estimulam a nunca desistir, a insistir sem descanso em algo. Para várias ocasiões, é claro que esse conselho serve e é bem vindo. Mas ele não é uma regra absoluta e, na realidade, é igualmente importante aprender a desistir, a cancelar, a selecionar e a dizer não se essas decisões jogam a favor de um caminho que traz mais impacto positivo, saúde ou foco. A boa execução de uma ideia ou projeto dependem desse equilíbrio entre saber insistir e saber desistir de algo.

A multidão na linha do tempo

Outubro de 2018


Tudo começa no mês das eleições.  A partir do contexto político em que o Brasil se encontrava (ou se encontra), concentrávamos nossa observação num recorte: o desafio que o Jornalismo enfrenta nos dias de hoje, que inclui a necessidade de revisão do modelo de negócios e o descrédito frente a camadas da população. Nesse cenário, estávamos realizando esse trabalho de formação de comunidade e diálogo com jornalistas para a adoção do Catarse Assinaturas. Entendíamos que uma solução de recebimento de pagamentos mensais e gestão de base de usuários poderia ser muito útil. Mas queríamos ir além e experimentar mais. E foi assim que resolvemos iniciar o trabalho de validação da Multidão.  

Já vínhamos discutindo a ideia de inverter a lógica do financiamento coletivo: reunir apoiadores primeiro, convocar realizadores e realizadoras depois. Pensávamos em construir um edital, ou um fundo independente  - como tudo que o Catarse faz -  composto por pessoas interessadas em aquecer comunidades da qual faziam parte. Com isso em mente, entendemos que poderíamos iniciar a ideia da Multidão focada no segmento de jornalismo.



Novembro de 2018

De outubro a novembro trabalhamos em validar com pessoas específicas a ideia e fazer testes para estabelecer o melhor tom narrativo, a redação da proposta da Multidão.


Em 23 de novembro, lançamos o site explicando nossas premissas e deixando claro que construiríamos em conjunto com a comunidade que chegasse junto da proposta. A ideia era ter um escopo aberto e intenção de se engajar nesse processo de construção. A motivação inicial foi a vontade de experimentar e conhecer melhor o universo do jornalismo independente.


Dezembro de 2018 a fevereiro de 2019

Não temos palavras para descrever como a ideia foi bem recebida pelas pessoas, os feedbacks que recebemos e todas as interações preciosas que tivemos devido à Multidão. Rapidamente duas pessoas, o Rafael Rezende e a Luiza Bodenmuller, somaram suas forças à pequena equipe que estava tocando a Multidão como um projeto interno e de aposta do Catarse.


Foram mais de 1330 inscritos, fizemos mais de 50 conversas com jornalistas e interessados. Fomos entrevistados pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo, pelo Centro Knight para as Américas, entramos em contato com projetos de ponta como o Membership Puzzle, colaboração entre o pessoal do The Correspondent e a New York University que estuda a questão de membros associados no contexto do jornalismo, e movimentamos uma rede no twitter que apoiou publicamente a iniciativa. Tudo feito à la Catarse, na guerrilha, com poucos recursos mas muito amor e vontade de entender caminhos.


A todas essas pessoas, nossos sinceros e mais profundos agradecimentos.




Março de 2019

Tínhamos três perguntas claras desde o início da Multidão que estávamos constantemente avaliando para validar a ideia, adaptar e prosseguir com o trabalho.  

1- As pessoas se interessariam na proposta ao ponto de recomendarem a Multidão para outras pessoas?
Para entender os pormenores disso, utilizamos uma plataforma de referenciação (Maitre) para que pessoas pudessem entrar num processo de trazer mais pessoas por recomendação. Essa hipótese foi validada e cerca de 45% da base veio através do convite de outros usuários, e não nossos. Inclusive sabíamos já os canais e táticas que trariam mais gente depois de análises e ações que fizemos nos meses anteriores.


2- Conseguiríamos chegar a uma massa crítica mínima de pessoas para prosseguir para uma fase de lançamento/construção da Multidão?
Queríamos chegar a uma meta de 5 mil pessoas inscritas até março e ficamos bem longe desse número. Uma série de razões podem ser atribuídas ao porquê de não atingirmos esse número, mas isso daria um post à parte.


3- As pessoas se engajariam e participariam em canais da Multidão?
Queríamos entender aqui se seria possível estimular o crescimento de uma comunidade engajada e que pudesse se conectar sem nosso intermédio. Não queríamos somente emails em uma lista. Queríamos pessoas dispostas a trocar ideias e experiências. Medir isso era mais difícil, e sabíamos que Roma não foi construída em um dia. Queríamos apenas identificar sinais de que seria possível nutrir essa comunidade ao ponto de ela se desenvolver de maneira orgânica, com interações livres entre seus membros. Tivemos ótimos resultados com o Fórum que montamos e com a Rede de Ação via WhatsApp onde nos comunicávamos um a um com pessoas que tinham dúvidas. Fora emails que nos foram enviados e convites para conversas. Nossa conclusão foi a de que, sim, existem sementes que se bem regadas podem gerar mais adensamento na comunidade de jornalismo independente brasileiro.

Analisando retrospectivamente os meses anteriores sob a ótica desses três pontos principais, planejávamos esfriar um pouco a Multidão. Queríamos nos recolher um pouco para estudar caminhos possíveis e resolver a questão principal para a continuidade do projeto: ter recursos financeiros para uma equipe dedicada. Já havíamos antecipado isso e nos inscrevemos para o recebimento de um aporte do pessoal do Membership Puzzle, assim como estávamos estudando a possibilidade de levantarmos esse recurso com a comunidade através de uma campanha de crowdfunding. Chegamos a lançar uma pesquisa só sobre isso. Além disso, havíamos, na trajetória dos últimos meses,  identificado desafios burocráticos, jurídicos e de funcionamento para a iniciativa e esse era mais um dos motivos pelos quais precisávamos "voltar para o laboratório" para entender como prosseguir.


Estávamos trabalhando para resolver esses problemas, só que imprevistos na operação do Catarse e uma equipe que se reduziu com a saída de pessoas muito importantes no time (que foram viver novas aventuras e ficamos felizes com isso) nos fizeram reconsiderar se teríamos condição de ultrapassar esses desafios sem comprometer a qualidade de nosso trabalho principal no Catarse.


Decidimos focar no que temos feito, no impacto que temos causado com nosso trabalho junto a jornalistas no Catarse Assinaturas. Convido todos vocês a lerem os boletins que estamos mensalmente soltando mostrando o resultado desse aspecto do nosso trabalho. Estamos no quarto boletim no momento em que esse texto está sendo publicado e você pode conferir os textos dos boletins 1, 2 e 3 se quiser ver o histórico. Olha o gráfico abaixo que ele auto explica como o trabalho que começou em outubro do ano passado, e envolveu a dobradinha Catarse Assinaturas e Multidão, tem sido importante. O gráfico demonstra a quantidade de assinaturas ativas para projetos de jornalismo e o valor que elas representam.  A importância vai muito além do crescimento em si e dos valores. O Catarse Assinaturas confere uma nova via para veículos independentes se sustentarem, estabelece canais de relação mais direta com o público e gera experiências que nos ajudam a evoluir nosso trabalho de seguir criando ferramentas úteis para esse público.

    

Mas não dava para prosseguir de alguma maneira?


Provavelmente sim. Mas na nossa avaliação isso comprometeria outras coisas. O ponto aqui é: levantar um negócio, ou fazer uma campanha de crowdfunding de proporções maiores, é uma atividade custosa e que exige muito foco e recursos. E sabemos muito bem disso ;)

Para todos terem uma ideia, o The Correspondent, iniciativa que, em dezembro de 2018, foi recordista mundial pela segunda vez (batendo seu próprio recorde de 2013) em número de apoiadores para um projeto de jornalismo, utilizou cerca de 1,8 milhões de dólares para montar toda a operação da campanha que levantou mais de 2,6 milhões. Nesse post eles contam um pouco do processo e é uma ótima fonte de conhecimento para quem quer empreender algo mais complexo ou que persegue valores maiores em campanhas de financiamento coletivo. Estávamos dispostos a isso, mas somos uma empresa enxuta, sem investidores, que precisa gerir muito bem os recursos que têm à disposição. Somado a isso, ao longo de 2018 a equipe do Catarse foi bastante reduzida por várias razões (outro post à parte). Éramos 18 pessoas e hoje estamos em 10. Por isso, não era uma opção comprometer mais recursos para algo que ainda estava muito embrionário, como era o caso da Multidão. Não seria justo nem com a Multidão, que teria dificuldades de ser potencializada e fazer jus às expectativas das pessoas, nem com o trabalho que realizamos no Catarse, que hoje é nossa atividade principal e gera impactos que consideramos muito importantes.

Foi por tudo isso que, após um hiato nas comunicações, decidimos que era momento de tirar a Multidão de cena e focar na construção de uma comunidade de jornalistas que desejam utilizar o Catarse Assinaturas. Você pode ver o resultado desse trabalho em nossa página dedicada ao jornalismo no Catarse e acompanhando os nossos Boletins sobre Jornalismo no Catarse. A decisão por desativar a Multidão foi difícil pois estamos fazendo isso sabendo que o projeto tinha enorme potencial. E acreditem: consideramos que foi um sucesso. Falamos isso de um lugar de aprendizado, positivo, uma experiência que nos colocou em contato com pessoas incríveis e ajudou a identificar as dores e desafios do cenário de jornalismo independente brasileiro.

Fica aqui novamente o nosso agradecimento a todos e todas que ajudaram e viram na Multidão um caminho. A marca volta a ficar guardadinha, para renascer num momento mais propício, seja com essa missão que visualizamos aqui, seja com novos desafios que hão de surgir no futuro.

Se você tem qualquer dúvida, ou quer falar algo, escreva para multidao@multidao.com.br

Rodrigo Machado
CEO, Catarse

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Veja como era o site da Multidão